O Homem Que Não Está Lá é uma chamada online em tempo real. Uma actriz num palco, e público, a comunicar através do skype com outro actor, situado em Moscovo, acompanhado de público russo. São duas perspectivas da mesma história.

O russo Ivan e a portuguesa Sofia não se conhecem ao vivo, só por internet. Talvez se ela soubesse um pouco de russo e ele de português a comunicação fosse melhor, mas assim terão que utilizar as tecnologias existentes na internet para falarem.

À atracção pela pessoa desconhecida junta-se quase sempre idealização e projecção, os temas do espectáculo. Assenta na realidade de trabalho dos actores através da internet. A dificuldade do idioma, o fuso horário, a inegável diferença cultural, resultam numa comunicação híbrida, onde são expostos os seus problemas na era da globalização. É do conjunto de repetições dos seus encontros e da falibilidade da comunicação na internet que se compõe este espectáculo.

O Tio Vânia, de Tchekov, aparece pela necessidade de traduzir o zeitgeist inerente à história e o tipo de comunicação em que é investido. O espaço e o tempo são os primeiros elementos a sofrerem uma reorganização virtual, dando uma nova dimensão ao determinismo tchekoviano. Posteriormente os actores têm de alcançar a comédia e o espectáculo surge das projecções e suposições que cada um faz daquele que vê, daquilo que supõe que o outro é e a partir do que o outro está a dizer. Como não se conhecem previamente, esta comunicabilidade torna-se um espaço dramático onde são criadas múltiplas personalidades: quem são, quem querem ser e quem querem ser para os outros. As imagens que mostram de si próprios, o passado que inventam para o outro resulta numa miscelânea entre o que é e/ou foi, e o que é imaginado.

Deixamos de existir quando estamos online, passamos a ser uma percepção do outro: acedemos ao mundo do outro por via mediada, sendo que esta imagem é apenas mais uma adição ao conjunto de percepções que compõem especificidade das relações virtuais. Dar o sinal de disponível é estar disponível para deixarmos de ser nós próprio, e passarmos a ser O Homem que Não Está Lá.

Com o apoio do Espaço CAPa, Embaixada da Federação da Rússia e Teatro da Garagem

Direcção | Luzes | Figurinos Patrícia Carreira

Dramaturgia | Statt Miller

Cenografia | José Manuel Castanheira, com a colaboração de Marta do Vale, Francisco Moura Pinheiro, Inês Farmhouse Coimbra e Gonçalo Lopez Carvalho

Design | Mafalda Moreiro

Fotografia | Miguel Rodrigues

Vídeo | Víctor Jorge

Actores | Sofia Ferrão | Ivan Karpenko

Gestão | Miguel Maia

Agradecimentos | Pedro Flores, Guilherme Martins, André Almeida

Uma produção Pata Filmes em co-produção com T0LX e Co.Theatre


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